SlutWalk e os desafios do feminismo no Brasil

Sábado agora em São Paulo vai rolar a 1ª SlutWalk do Brasil pela blogosfera feminista o tema tem sido bastante polêmico, a Srta Bia em post no Blogueiras Feministas conseguiu reunir um pouco do que está se discutindo por aí.

O SlutWalk teve início em Toronto, no Canadá, quando o policial Michael Sanguinetti, durante uma palestra sobre segurança em uma universidade, declarou que:

Vocês sabem, eu acho que nós estamos fazendo rodeios aqui. Disseram-me que eu não deveria dizer isso, mas as mulheres devem evitar se vestir como vagabundas, para não se tornarem vítimas de ataques sexuais (SANGUINETTI, Michael)

A afirmação desencadeou uma série de manifestações não apenas no Canadá, mas também em Boston e agora no Brasil. Apesar de colocar um eixo de que não é para dizer o que as mulheres devem fazer ou não, mas sim ensinar os homens a não estuprar. Porém é preciso lembrar que violência sexual não é cometida apenas contra jovens universitárias, profissionais diplomadas e afins. Violência sexual atinge também as prostitutas que talvez sejam a base da pirâmide sexual da sociedade, sem direitos sociais assegurados, criminalizadas pela polícia, violentadas por clientes…

As mulheres apoiavam a Caminhada porque acreditam em algo que todas nós compartilhamos: mulher nenhuma é estuprável. Não importa o que vista, que horas sejam, ou quão bêbada esteja. Isso, não tenham dúvidas, não é alvo de críticas por nenhuma das mulheres que se opõem ao Slutwalk. (Mexy_)

E é bom lembrarmos que:

A repressão sexual é uma forma bastante eficiente de controle sobre a vida e o comportamento de todas/os, mas particularmente as mulheres sofrem com a existência desse instrumento de dominação. Em primeiro lugar, por conta da divisão de papéis na sociedade, em que cabe aos homens o exercício pleno do poder, manifestado das mais diversas formas. Em seguida, por carregarem historicamente a imagem da “mulher” associada à da “mãe”, pura, assexuada e impossibilitada de sentir prazer.

De acordo com esse raciocínio, violentar ou estuprar uma “vadia”, não se encaixa na categoria de violência e não se configura exatamente um estupro, já que essa mulher rompeu com as normas comportamentais, não merece respeito e deve arcar com as conseqüências. (CALU, Jana)

Porém o fato de em vários países as organizadoras acabam por adotar a consígnia:

We’re sluts, not feminists

Somos vadias, não feministas

Coloca a discussão sobre se haveria ou não espaço para disputar politicamente o ato, acredito que as ponderações se baseando nas considerações de Rebecca Mott são válidas, mas aí questiono, fazemos o que então? Ficamos em casa enquanto mulheres dispostas a discutir violência sexual vão às ruas e tomam contato com uma visão torpe do que é a luta contra a violência de gênero, que acaba por não problematizar o que é a prostituição, turismo sexual e tráfico de pessoas no país; compreendendo a prostituição como uma profissão qualquer quando não é pois não possui direitos assegurados e nos países onde ela foi legalizada as investigações sobre tráfico humano se dificultaram absurdamente.

Porém, em um país onde 10 mulheres morrem por dia, onde no início do governo da primeira mulher presidente corta-se a verba do Pacto de Enfrentamento à Violência Contra Mulher em 23% do já combalido orçamento destinado a este programa, não é importante a iniciativa de mulheres irem para as ruas pautar a discussão de violência sexual? Só se faz disputa de hegemonia dispuando a hegemonia, pois não há lugar vago na política, se não houver setores no SlutWalk brasileiro dispostos a pautar o debate sobre violência machista e mercantilização do corpo da mulher e das relações sociais com propriedade é óbvio que a ideologia prenominante será a do senso comum, sem aprofundar a discussão e afins.

A meu ver, toda manifestação de mulheres clamando por mais liberdade e menos estigma sexual é válida, esteja ela oficialmente ligada ao movimento feminista ou não. O churrascão da gente diferenciada, em Higienópolis, estava cheio de gente que só foi ali por pura farra – e isso, de maneira nenhuma, anulou ou invalidou o significado do ato. O recado foi dado: o preconceito de classe de alguns não p0de se sobrepor ao que é melhor para a cidade como um todo. Todo mundo entendeu.

O fato de muitas meninas dispostas a comparecer à marcha não se declararem feministas não é algo necessariamente ruim. Pelo contrário. Acho que, se elas já se sentem revoltadas com a cultura que culpa as mulheres pelo estupro, se elas já se sentem oprimidas pela dicotomia santa x puta, então há grandes chances delas já serem inclinadas ao feminismo: elas talvez apenas não conheçam o movimento direito. Talvez ainda estejam presas a um estereótipo bobo de que feministas são caricatas, ranzinzas, odiadoras de homens. E bem, nada mais eficiente para quebrar estereótipos do que ter algum tipo de contato com o Outro. A slutwalk colocará as moças que dizem “defendo isso, isso e aquilo, mas não sou feminista” em contato direto com militantes e outras moças que se assumem abertamente feministas. Taí uma excelente chance delas enxergarem as feministas com outros olhos e, quem sabe, se juntarem ao nosso balaio. (RODRIGUES, Marjorie)

O espaço propicia debater a criminalização das vítimas, principalmente quando estas são prostitutas, pois muitas vezes não dão parte de abusos e afins pelo fato de já serem estigmatizadas pela propria polícia, ajuda a cobrar do governo compromisso real com os programas de enfrentamento à violência contra mulher, ampliando a discussão para além do âmbito doméstico, mas como é necessário discutir violência de gênero numa perspectiva mais global, incorporando realmente a educação antissexista na pauta das escolas, assim como a educação sexual.

Em suma, ouvimos desde pequenas como devemos nos comportar para evitar o estupro (não vista essas roupas, não ande naquela rua, não saia à noite, cuidado com todos os homens), mas ninguém diz o óbvio. Ninguém ensina os homens a não estuprar. E deveria ser este o foco, certo? Afinal, se um terço das mulheres no mundo é vítima de algum tipo de abuso sexual, é sinal de que tem alguém abusando. E não é um ou outro maníaco isolado. São homens comuns. Calcula-se que entre 70% e 80% dos estupros são cometidos por conhecidos (pais, padrastos, tios, avôs, irmãos, amigos), não por um estranho numa rua escura que não se contém ao ver uma moça de minissaia. (ARONOVICH, Lola)

A SlutWalk a ser realizada em São Paulo coloca à nós feministas (sejam as radicais, as marxistas, as equitárias) um desafio de como disputar na sociedade a nossa ideologia, pois sinceramente nestes último anos só temos levado caldo atrá de caldo e aproveitar um espaço no qual mulheres se propiciam a debater sobre violência, sexualidade e tantos outros temas ligados intrínsecamente ao debate do feminismo que não podemos nos furtar de ir lá disputar corações e mentes, pois é assim que se disputa a sociedade para o nosso programa e pauta, não se eximinido de ir em atos público amplos e diversos onde há real possibilidade de capilarizar um pouco mais a discussão sobre a violência machista e todas as suas imbricações.

Discutir a violência contra mulher é um passo para conseguirmos compreender o que realmente é a nossa autonomia, pois violência perpassa pela lógica de nos encarar como propriedade e que podem ser expropriadas de seu corpo a qualquer momento. Compreender que ao sermos espancadas, estupradas, cortadas, intimidadas ou mortas somos expropriadas e que tal processo não acontece com os homens, pois são autônomos e decidem o que fazem e o que podem fazer conosco é um grande passo para mudança da base cultural e ideológica da sociedade. Confrontar a violência sexista deve ser central não apenas para as mulheres, mas para toda sociedade. (Luka)

A SlutWalk até agora não me parece um movimento monolítico e fechado politicamente como tantos que por aí existem, é espaço passível de disputa política e ideológica assim como o 8 de março unificado e todas as suas dificuldades. Se nós feministas nos articularmos bem com eixo claro de disputa e vertebrando uma intervenção neste ato acredito sim ser possível dialogar com as mulheres que ali estiverem, pois uma coisa é clara o fato de você se vestir assim ou assado, estar bêbada ou só dar um sorrisinho numa balada não é um convite para ser estuprada.

6 respostas para SlutWalk e os desafios do feminismo no Brasil

  1. Sendo curtiissimo e grosso porque o tempo urge, ruge e a panela tá no fogo: Nega, tem de ir, o que elas se autoconclamam , “Não-Feminista”, não pode ser barreira pro ato de ir lá e disputar hegemonia. Como disse um amigo velho: Nunca vi um comunista de berço. Tô contigo, abraço.

  2. Paloma

    Total acordo. Existe uma ode ao senso comum no discurso de algumas participantes desta marcha. Li em algum lugar a frase: “quero ser sensual, e nem por isso sou puta”… aí já está indicado o preconceito e a segregação feminina (que partiu de uma fala feminina) mais uma vez deslocando a manifestação para o campo apolítico da prática pública.
    Triste. Tenho mais raiva dessas mulheres do que do policial que desencadeou tudo isso. Essa burguesia feminina que quer usar minissaia pelo direito de ser sexy. Porra, bora achar questões mais profundas…

  3. […] Porém, em um país onde 10 mulheres morrem por dia, onde no início do governo da primeira mulher presidente corta-se a verba do Pacto de Enfrentamento à Violência Contra Mulher em 23% do já combalido orçamento destinado a este programa, não é importante a iniciativa de mulheres irem para as ruas pautar a discussão de violência sexual? Só se faz disputa de hegemonia dispuando a hegemonia, pois não há lugar vago na política, se não houver setores no SlutWalk brasileiro dispostos a pautar o debate sobre violência machista e mercantilização do corpo da mulher e das relações sociais com propriedade é óbvio que a ideologia prenominante será a do senso comum, sem aprofundar a discussão e afins. (FRANCA, Luka. SlutWalk e os desafios do feminismo no Brasil) […]

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