Seja empregada doméstica ou tercerizada a sina é a mesma: Invisibilidade

Hoje é o Dia Nacional das Trabalhadoras Domésticas, uma das categorias mais exploradas e que sofre diretamente com a falta de direitos assegurados e muitas vezes – na maioria quando são migrantes – não sabem o quanto irão ganhar, onde morarão ou quais são as demandas do trabalho. O trabalho doméstico é tão marginalizado que em pleno século XXI nos deparamos com declarações como a do ex-ministro da fazenda Delfim Netto chamando as empregadas domésticas de animais raros.

Há uma ascensão social incrível. A empregada doméstica, infelizmente, não existe mais. Quem teve este animal, teve. Quem não teve, nunca mais vai ter. (NETTO, Delfim)

A infeliz declaração do ex-ministro da fazenda acaba nos dando um dica onde se localiza o trabalho de reprodução no país, é algo marginalizado, invisível, feito normalmente por mulheres pois na divisão sexual do trabalho é tarefa delas o cuidar do espaço privado e do cuidado com a família, principalmente daquele que tem por responsabilidade o trabalho de produção: o homem. Não tenho certeza, mas talvez seja um dos motivos para que tal atividade seja tão precarizada.

Apesar de sermos mais de seis milhões de trabalhadores apenas 1,774 milhão possuem carteira assinada.  Isso é uma violação de direitos e quando se trata do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), o ataque é ainda maior. Por ser opcional o depósito aos domésticos, apenas 78 mil tem garantido este benefício. E quando o depósito não é realizado mais um direito é negado aos trabalhadores: o seguro-desemprego. (SANTANA, Ione. CUT)

Se formos observar de forma cuidadosa percebemos que o trabalho exercido por estas mulheres é essencial, é ele quem permite outras mulheres sairem de casa e ocuparem postos no mercado de trabalho, atividade esta não contabilizada para aposentadoria daquelas que não tem como pagar outra pessoa para ficar em seu lugar garantido que este trabalho reprodutor seja realizado, atividade precarizada na qual pouquíssimas pessoas tem asseguradas seus direitos e ainda é preciso pressão sobre a grande maioria dos patrões para que estes sejam obrigados a cumprir a legislação, mesmo muitas vezes eles se colocando no lugar da vítima neste debate.

As empregadas domésticas, serventes e afins são trabalhadores invisíveis, ninguém lembra de suas histórias, feições e dramas, mas lá elas estão, todos os dias, limpando o chão, cuidando de nossos filhos e nos propiciando o mínimo de conforto. Não há como não comparar a realidade das milhões de empregadas domésticas do Brasil com o drama da maioria dos profissionais terceirizados nas instituições públicas e privadas, pois em grande parte as primeiras a serem terceirizadas são as serventes, aquelas que cuidam da limpeza, trabalham essencialmente feminino.

Voltava do trabalho e tinha que cuidar dela; duas, três jornadas de trabalho no mesmo dia. No trabalho, humilhação, assédio moral, assédio sexual, saúde estragada – ou até a morte – porque não tem uma luva, um equipamento descente, nada! Tem que comer em 5 minutos e dentro do banheiro. Não pode conversar com ninguém, nem com o estudante e o professor que passam, nem com a colega do lado; não pode ser um ser humano, apenas uma máquina de varrer (e máquina não fica doente, só quebra; e quando quebra, trocam por outra). Chega em casa depois de 1 hora de caminhada – com que dinheiro dá pra pagar três reais, ainda mais sem vale-transporte? – e vai fazer a comida e limpar mais. Às 4 da manhã acorda de novo; no caminho pela madrugada, é estuprada. Mas não importa, dane-se – diz o patrão –; tem que limpar. (MACHADO, Luciana. Pão e Rosas)

Virar as costas para este debate é reafirmar que estas mulheres não existem, que são invisíveis e suas necessidades não são reais. São devaneios daqueles que constroem teorias da conspiração a torto ou a direito. Mas quem se importa com as marginalizadas da sociedade, não? Nasceram escravas e assim morrerão. Sem direitos, sem o FGTS saber que elas um dia existiram, sem poder tirar férias e viajar como é assegurado para outros trabalhadores. Você pode virar e dizer que na sua casa não é assim, que a sua empregada especificamente ganha todos os direitos, FGTS e o escambau, mas em um país onde há mais de 6 milhões de empregadas domésticas e um pouco mais de 1 milhão dessas tem a carteira assinada, na realidade concreta da maioria das domésticas do país o trabalho ainda é sub-remunerado, sujeito à maus-tratos e assédios em geral. Se eximir pelo fato de estar cumprindo a lei e não debater também a equiparação de direitos entre as domésticas e as outras categorias do país é também virar as costas para esta categoria importante que faz justamente aquele trabalho que para o capitalismo e patriarcado não possue importância real: o trabalho reprodutor.

Acredito também que é preciso relacionar a realidade do trabalho doméstico com a realidade daquelas que realizam o mesmo tipo e trabalho mas não para casas, mas sim para empresas, pois são tão precarizadas como… Gostaria muito de poder dizer que hoje é um dia de comemoração, mas a realidade concreta me diz outra coisa.

Este post faz parte da blogagem coletiva sobre trabalho doméstico organizada pelo Blogueiras Feministas.

Outros posts sobre o assunto:

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Dia nacional das trabalhadoras domésticasSrta Bia

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10 respostas para Seja empregada doméstica ou tercerizada a sina é a mesma: Invisibilidade

  1. É terrível esta “invisibilidade” que todo mundo sabe que existe, mas se omite. Lá em meu post, eu falo que é necessário discutir a questão da autonomia dos moradores de uma casa. É fundamental criarmos filhos que se responsabilizem por suas próprias coisas, que sejam conscientes do valor do trabalho e da importância de dividir responsabilidades. Este é o primeiro passo para termos adultos conscientes de que o trabalho doméstico deve ser valorizado e os trabalhadores precisam ser valorizados e tratados como seres humanos cujos direitos precisam ser assegurados e respeitados.
    beijo, menina

    • Luka – Autor

      Denise,

      Acho que é uma parte de todas as mudanças necessárias que precisam ser feitas, me assusta ano após ano a precarização vindo a torto e a direito atingindo em cheio nos mulheres e nada fazemos… Logo vamos virar a França no que há de pior por lá a xenofobia, estamos quase lá.

      Beijos!

  2. Excelente texto, Luka! Profundo, triste, cheio de sentidos.

    O mais revelador é que, se pegarmos os dados que você expõe e cruzarmos com cor e raça, a situação fica ainda mais cruel e indigna, expondo o quadro real e triste do que o racismo apronta em nossa sociedade.

    abraços femininos em prol da nossa luta.

    Jany

    • Luka – Autor

      Jany,

      O quadro é muito mais alarmante quando adicionamos a este caldo a questão racial… Acho que já está mais do que na hora tomarmos noção de que o feminismo no Brasil precisa ser antirracista desde sua base.

      Abraços!

  3. […] Virar as costas para este debate é reafirmar que estas mulheres não existem, que são invisíveis e suas necessidades não são reais. São devaneios daqueles que constroem teorias da conspiração a torto ou a direito. Mas quem se importa com as marginalizadas da sociedade, não? Nasceram escravas e assim morrerão. Sem direitos, sem o FGTS saber que elas um dia existiram, sem poder tirar férias e viajar como é assegurado para outros trabalhadores. Você pode virar e dizer que na sua casa não é assim, que a sua empregada especificamente ganha todos os direitos, FGTS e o escambau, mas em um país onde há mais de 6 milhões de empregadas domésticas e um pouco mais de 1 milhão dessas tem a carteira assinada, na realidade concreta da maioria das domésticas do país o trabalho ainda é sub-remunerado, sujeito à maus-tratos e assédios em geral. Se eximir pelo fato de estar cumprindo a lei e não debater também a equiparação de direitos entre as domésticas e as outras categorias do país é também virar as costas para esta categoria importante que faz justamente aquele trabalho que para o capitalismo e patriarcado não possue importância real: o trabalho reprodutor. (FRANCA, Luka. Seja empregada doméstica ou tercerizada a sina é a mesma: Insibilidade. BiDê Brasil) […]

  4. […] Virar as costas para este debate é reafirmar que estas mulheres não existem, que são invisíveis e suas necessidades não são reais. São devaneios daqueles que constroem teorias da conspiração a torto ou a direito. Mas quem se importa com as marginalizadas da sociedade, não? Nasceram escravas e assim morrerão. Sem direitos, sem o FGTS saber que elas um dia existiram, sem poder tirar férias e viajar como é assegurado para outros trabalhadores. Você pode virar e dizer que na sua casa não é assim, que a sua empregada especificamente ganha todos os direitos, FGTS e o escambau, mas em um país onde há mais de 6 milhões de empregadas domésticas e um pouco mais de 1 milhão dessas tem a carteira assinada, na realidade concreta da maioria das domésticas do país o trabalho ainda é sub-remunerado, sujeito à maus-tratos e assédios em geral. Se eximir pelo fato de estar cumprindo a lei e não debater também a equiparação de direitos entre as domésticas e as outras categorias do país é também virar as costas para esta categoria importante que faz justamente aquele trabalho que para o capitalismo e patriarcado não possue importância real: o trabalho reprodutor. (FRANCA, Luka. Seja empregada doméstica ou tercerizada a sina é a mesma: Insibilidade. BiDê Brasil). […]

  5. […] As empregadas domésticas, serventes e afins são trabalhadores invisíveis, ninguém lembra de suas histórias, feições e dramas, mas lá elas estão, todos os dias, limpando o chão, cuidando de nossos filhos e nos propiciando o mínimo de conforto. Não há como não comparar a realidade das milhões de empregadas domésticas do Brasil com o drama da maioria dos profissionais terceirizados nas instituições públicas e privadas, pois em grande parte as primeiras a serem terceirizadas são as serventes, aquelas que cuidam da limpeza, trabalham essencialmente feminino. (FRANCA, Luka. Seja empregada doméstica ou tercerizada a sina é a mesma: Invisibilidade) […]

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