Convidada: Racismo x Machismo: um convite à reflexão

Texto a seguir é da Karina Moura companheira do PSOL/ES, nos conhecemos enquanto militávamos na ENECOS e esta semana chegou a mim o caso da agressão que ela sofreu por parte de um militante do Fórum de Juventude Negra, deste processo que tem se desenvolvido pelo ES ela escreveu a reflexão que publico aom autorização da mesma. Nenhuma agressão passará!

O racismo é crime, certo? Certo! Mas o racismo sempre foi crime? Não, não! Teve uma época em que ele era inclusive institucionalizado! Os negros eram publicamente vistos como inferiores, comercializados como mercadoria, tinham uma determinada função na sociedade. Mas isso todo mundo nessa lista está careca de saber!

Abolição oficial da escravidão, quase um século e meio depois e o racismo permanece entre nós. Só que agora ele é velado e se reproduz simbolicamente nas entrelinhas da sociedade. Mas a luta histórica do movimento negro conquistou uma legislação específica que tornou o racismo um crime. E a lei garante que “serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Mais anos de luta, marchas, cartas de repúdio, manifestações, atos públicos e protestos e fomos conquistando alterações sempre no sentido de punir toda e qualquer forma de preconceito racial.

Versus

A violência contra a mulher é crime, certo? Certo! Mas a violência contra a mulher sempre foi crime? Não, não! Na nossa sociedade as relações sociais e pessoais entre as mulheres e os homens se estabelecem baseadas no patriarcado, essa estrutura desigual de opressão onde a mulher é considerada inferior e também cumpre um determinado papel na sociedade: submissão às vontades e desejos masculinos. Mas isso todo mundo nessa lista está careca de saber! Será?

Organização das mulheres, movimento feminista. Após muitos anos de luta, marchas, cartas de repúdio, manifestações, atos públicos, protestos, queimas de sutiãs, conquistamos uma legislação específica que tornou a violência contra a mulher um crime. A lei, conquistada muito recentemente, garante uma série de medidas para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher, além de garantir as medidas de proteção e assistência às mulheres vítimas de violência. Conseguimos tornar público, o que antes era absolutamente privado. Conseguimos tornar uma questão, que antes era de foro íntimo, em problema social. Sem dúvida, um grande avanço na luta das mulheres, visto que até pouco tempo atrás o homem poderia violentar e até matar uma mulher em defesa de sua honra. Afinal, em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher!

Racismo versus machismo. Ambas as lutas trazem consigo características comuns. São movimentos específicos, que muitas vezes, mesmo dentro dos movimentos sociais de esquerda, são taxados como lutas menores, não prioritárias. Muitos insistem em dizer que findada a desigualdade entre as classes, automaticamente findará o racismo e o machismo. Tola ilusão! Sabemos que isso não é verdade. Sabemos que o racismo, o machismo, a homofobia, para além das questões materiais, se perpetuam de forma cruel na subjetividade de cada um de nós. Daí a nossa disputa pelo simbólico. A guerra das palavras, dos símbolos, dos significados. A nova sociedade será construída por e construirá, simultaneamente, novas mulheres, novos homens e novas/os LGBT´s.

A pergunta é: onde está o botão que aciona nossa indignação? Ficamos tão indignados com as falas racistas de deputados, com as atitudes racistas e violentas de policiais e agentes da segurança pública. Chamamos essas falas e atitudes de abomináveis, intoleráveis, inadmissíveis. Enquanto Fórum da Juventude Negra a gente grita constantemente com os demais movimentos sociais de esquerda: Hei! A nossa luta não é menor não! Não é secundária a coisa nenhuma! Hei! Escutem a gente! Somos duplamente oprimidos, sofremos com o racismo e sofremos com a desigualdade. Hei! A luta contra o racismo tem que caminhar lado a lado com a luta pela transformação social que queremos.

A pergunta é: onde guardamos o nosso machismo? Porque, nós mulheres negras, mesmo dentro dos movimentos sociais, ainda temos que gritar: Hei! Por obséquio companheiros indignem-se com as falas e atitudes machistas e violentas que nós sofremos repetidas vezes no nosso cotidiano. Hei! Escutem a gente! A nossa luta não é menos importante não! A nossa luta não pode ser colocada em segundo plano coisa nenhuma. Somos triplamente oprimidas, sofremos com o machismo, o racismo e a desigualdade. Hei! A luta pela igualdade entre mulheres e homensprecisa caminhar lado a lado à luta contra o racismo e pela igualdade social.

Porque não tolerar práticas racistas de nenhum nível ou tamanho, mas aceitar e/ou abrir concessões em relação a práticas machistas? O racismo é um absurdo, é crime! Mas o machismo é tolerável dentro de determinadas situações e limites?

Qual é o limite?

Onde está o botão que aciona a nossa indignação?

Onde escondemos o nosso machismo?

Muita reflexão ainda precisa ser feita. Muitas práticas ainda precisam ser revistas e transformadas.

Por uma vida sem racismo, sem desigualdades, sem opressões, sem extermínio e sem violência machista!

 

Karina Moura, mulher, negra, feminista, socialista, indignada!

 

Responder a Convidada: Racismo x Machismo: um convite à reflexão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s