Qual o lugar do feminismo na política?

Há um texto do Idelber Avelar escrito durante aquele quiprocó entre blogueiras feministas e o Luis Nassif que acabei relendo para escrever este post, pois acho que tem tudo haver com algumas coisas que normalmente me incomodam profundamente, até por que como Idelber muito bem resgatou neste texto não é de você que devemos falar.

Quando tu estás diretamente lidando com política e a esquerda o confrontar com o fatídico: Vamos discutir política e não questões pessoais. Normalmente as questões pessoais são aquelas relacionadas com reações, falas ou condutas machistas no dia-a-dia da política, um telefonema intimidando uma militante é tido por seus companheiros como bobagem, sem levar em conta que quase nunca um homem receberia um telefonema desses por bancar determinado posicionamento político, ou então quando em uma reunião um rapaz levanta o tom de voz e vai para cima de companheiras para intimidá-las e assim ganhar a política. Como se apenas os argumentos políticos não bastassem, pois nós não podemos fazer a disputa política, mas apenas as relatorias de reuniões ou secretaria de congressos a articulação da política fina não cabe a nós.

Quando esses homens são confrontados por uma feminista, seja em sua ignorância, seja em sua cumplicidade com uma ordem de coisas opressora para as mulheres, armam um chororô de mastodônticas proporções, pobres coitados, tão patrulhados que são. Todos aqueles olhos roxos, discriminações, assédios sexuais, assassinatos, estupros, incluindo-se estupros “corretivos” de lésbicas (via Vange), objetificações para o prazer único do outro, estereotipia na mídia, jornadas duplas de trabalho, espancamentos domésticos? Que nada! Sofrimento mesmo é o de macho “patrulhado” ou “linchado” por feministas! A coisa chega a ser cômica, de tão constrangedora. (AVELAR, Idelber)

Quem ler este texto pode se identificar com qualquer um dos casos, mas não, não é de ti que estou falando, mas sim de uma relação social entre homens e mulheres na política que é baseada também no arraigado machismo existente na sociedade, onde as mulheres que denunciam violências e abusos são taxadas de histéricas, aqueles que articulam política seja em qual movimento for não estão longe da sociedade e de como as relações sociais são constituídas e se pretendem mudar a sociedade é necessário compreender que a política geral se faz também com o enfrentamento real do machismo em conjunto com o enfrentamento do capitalismo.

Fazer a dissociação entre a luta política e a luta contra o machismo é no mínimo cruel com as mulheres, pois não são lutas dissociadas. Parece que é preciso dizer com todas as letras sempre e mesmo assim elas não são lidas ou ouvidas: Meus caros não haverá transformação rela se isso não passar também por uma tranformação social nas relações sociais entre mulheres e homens. O machismo interfere diretamente na política, pois como vamos mudar a sociedade sem mudar as relações sociais? Isso também é política, menosprezar o que as mulheres falam ou revindicam como se fossem pautas menores e coisa de histéricas é no mínimo cegueira política. Poderia dar milhões de exemplos de casos e mais casos de machismo para mostrar que o padrão é o mesmo e não são questões pessoais, fazem parte do relacionamento social baseado na exploração e opressão vivido por nós e perpetuado geração após geração.

Mas por que há coisas que os homens podem fazer e as mulheres não? Por que também na política e na esquerda há engedrado a lógica do lugar social da mulher, uma boa dirigente é aquela reservada, organizada e que não questiona as decisões políticas de seus companheiros homens, como uma boa esposa dos anos 50. O lugar da mulher na política é o do secretariado ou então de dirigir o debate de gênero, algo para além disso já é sair muito do seu papel.

É mais fácil para os homens, digo, homens da esquerda, se relacionar com mulheres sem consciência e concepção feminista. Pois, no fundo, oprimir alguém para que esta dependa de alguma forma – seja subjetiva ou objetiva -, é mais fácil e mais cômodo. (ALLI, Flávia)

Tivemos que arrancar os nossos direitos políticos a força e muitas vezes sem o apoio daqueles que estavam na mesma classe que nós e pregavam a igualdade de direitos e liberdade, é um dos motivos de existir sim uma dívida enorme da esquerda com as mulheres. Na teoria política também somos raramente lembradas, ou melhor, normalmente quem lembra das direções mulheres são as feministas para os outros isso passa desapercebido. Sim, há uma dívida brutal da esquerda com o feminismo, pois não há como pensar a luta revolucionária sem a participação das mulheres e enquanto a esquerda não encarar com seriedade os casos de machismo que acontecem em seu seio masi difícil será avançar, pois como disputar a sociedade para um projeto de igualdade se nem em nossas próprias fileiras conseguimos garantir esta igualdade? Compreender este compromisso com as mulheres é essencial para podermos construir uma nova sociedade, moral, ética e seres humanos e enquanto tratarmos a desiguldade de gênero como um debate que não é político recaíremos em erros históricos.

Estamos falando sobre um situação social concreta e não sobre você especificamente, parafraseando o Idelber.

6 respostas para Qual o lugar do feminismo na política?

  1. Muito, mas muito bom o texto. Infelizmente, ainda na esquerda, sofremos dos mais variados tipos de opressão por parte dos companheiros. Desde a tentativa de secundarizar a pauta feminista, até o tratamento diferenciado nos tons do discurso para/com as companheiras.
    ‘Não há socialismo sem feminismo’, pois socialismo que propõe a manutenção da opressão na sociedade não é digno de tal.
    No mais, cabe a nós combatermos tais práticas, bem como politizar nossos companheiros, afinal foram historicamente construídos para nos oprimir, infelizmente.

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