2010 – Uma odisséia na terra

Ontem foi dia de Retrospectiva 2010 da vênus prateada, digamos assim… superflua, com furos e sem grandes contextualizações sociais e políticas. Esperar o que de uma empresa que vai muito além do cidadão kane, né?

No começo do ano as já anunciadas, como sempre, inundações em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e tantos outros estados sofrendo com a “força da natureza”, força tal que poderia ser contida com investimentos públicos nas áreas atingidas e evitadas com o monitoramento metereológico existente no Brasil hoje, em nenhum momento lembram das pessoas que foram desalojadas de suas casas no Jardim Pantanal de forma criminosa pela prefeitura de São Paulo.

Fora o pipocar de casos de violência contra mulher, só em janeiro já tinham 9 mortas, incluindo a cabelereira Maria Islaine que foi 8 vezes na delegacia prestar queixa contra o ex e acabou tendo sua morte filmada pela câmera de segurança que ela mesmo instalou no local de trabalho e os casos de Mércia e Eliza.

Teve a expectativa para a Copa do Mundo e o Hexa brasileiro, mas alguém achava mesmo que ganharíamos o torneio para perder a Copa de 2014? Ganhamos a Copa e as Olímpiadas, com isso a intensificação da força das UPPs para pacificar as áreas que serão usadas para os eventos, ganhamos também a promessa de que estas Unidades serão levadas à todo Brasil. Querendo ou não ganhou com isso a especulação imobiliária e a criminalização da pobreza, pois hoje em áreas pacificadas o que acontece é um estado de sítio permanente.

Ganhamos um pouquinho sobre a redução da jornada de trabalho, uma luta descomunal para engavetar os projetos contra os direitos reprodutivos da mulher na legislatura que vencia, punição à grevistas fosse no cenário nacional, fosse nos estados e no apagar das luzes novamente o direito de greve é atacado pela grande mídia, só para não perdemos o costume da luta de classe.

Ano da bolinha de papel e do enterro político de Serra e do impasse petista sobre temas polêmicos, deixando diversos setores em uma saia justa de doer. Foi eleita a primeira mulher presidenta do Brasil, mas que apesar de sua história, assim como Lula, a borra com alianças de coronéis, mantendo a escoria da ditadura militar no Ministério da Defesa e não dando nenhuma declaração contundente sobre a Lei de Anistia, abertura dos arquivos da ditadura, legalização do aborto ou controle social da mídia – na verdade este último ainda achincalhado pela declaração da presidenta eleita de que o melhor controle da mídia é o controle remoto.

Foi o ano em que a esquerda-socialista conseguiu se pulverizar mais ainda, fosse com as 3 candidaturas (PSTU, PSOL e PCB), fosse no fiasco que foi o CONCLAT de Santos em junho, fosse nas disputas por vírgulas em diversos cantos e movimentos deste país.

Tivemos a militância 2.0 fortificada e apresentada de forma robusta, o pipocar de twitters, twitcams, blogs, vlogs e tudo mediado por uma lógica de comunicação imediata e consisa. A miliância mediada não pelo coordenador da reunião para não sair porrada entre os membros, mas sim pela tela de LCD, mouse e teclado, trocando assim a mobilização nas ruas pelos abaixo-assinados e pelo cyber-movimento confortável de nossas poltronas.

Ano que Kassab e mais 10 vereadores quase foram cassados, mas que a cidade de São Paulo ficou inerte, visto que dos 10 vereadores não havia apenas gente da direita clássica, mas gente do PT também.

A mobilização haitiana contra as tropas da Minustah por conta do surto de coléra que alastra o país e foi levado pelos soldados da ONU, calando assim aqueles que defendiam as tropas ali muito antes da devastação do Haiti pela natureza.

Centenário do Corinthians centernada, mas principalmente, centenário do Dia Internacional de Luta da Mulher (8 de março), momento de relembrar de Clara, Rosa, Flora, Alexandra, Krupzcaia, Simone, Angela, Lu Mahin e tantas outras que tanto lutaram por autonomia e liberdade, nos deixando um legado importantíssimo que deve ser perpetuado, mesmo que a disputa seja difícil e árdua.

E o desvelamento do racismo nas universidades da elite brasileira e do recrudecimento da intolerância contra os LGBTs.

No apagar das luzes Lula pega e finalmente dá sua última palavra sobre o caso Battisti e o exila finalmente em terras brasileiras golpeando Berlusconi e seus comparsas.

Ano difícil com disputas fratricidas, momentos de glória inebriante mesmo que efêmeras… 2010 fica para trás, vai chegando 2011, horizonte que me espera, fuga que me aguarda o tempo esmagador.

Sobra Mafalda e sua sapiência infantil muito bem lembrada pela Cinthia do Contra Machismo:

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