Virei feminista por que virei mãe

Para algumas pessoas esta afirmação pode parecer deveras contraditória, para mim não é, na verdade se não fosse mãe seria apenas aquela feminista existente apenas para dizer que a pauta em determinados espaços não foi esquecida, mas sem tentar fazer interfaces entre a luta femista e as lutas mistas, sem peitar companheiros quando estes tomam atitudes machistas com companheiras de outras organizações políticas. Vejam bem, não estou dizendo que as feministas que não são mães façam isso, mas eu só comecei a não relevar tais coisas depois que fui mãe, foi assim que acabei sendo absorta por um mundo feminino e feminista.

A luta feminista tem tudo relacionado com o ser mãe, principalmente se for solteira, pois as dificuldades impostas nestas distintas realidades são muito semelhantes. Pois muito se fala de colocar a pauta feminista do lado, pois nela se contém ponto polêmicos como legalização do aborto, combate à violência sexistas, diminuição da jornada de trabalho, divisão do trabalho doméstico, lugar de mulher na política e diversas outras discussões sobre política, sexualidade ou outros assuntos. Uma mãe solteira também passa por essa colocação de lado, primeiro na gravidez quando a tratam como se estivesse doente, óbvio que é necessário uma rotina um pouco menos atarefada, mas isso não quer dizer que seu cérebro é sugado paulatinamente pela placenta.

Talvez o buscar seu lugar junto a sociedade e a política após ser mãe seja uma das mais duras tarefas existentes, até por que, universidades, locais de trabalho, partidos, correntes, entidades estudantis e sindicais foram pensadas para a participação e militância masculina e há uma dificuldade real de garantir que as mulheres mães tenham sua participação política assegurada. Foi ao me tornar mãe que percebi o quanto os direitos civis e políticos das mulheres são colocados em segundo ou terceiro plano. Pensar formas que garantam o direito pleno de nós mulheres participarmos e termos nossas reivindicações defendidas no mesmo patamar do que as outras e não de forma secundária, ou com a pecha de estar entre as reivindicações negociáveis.

Foi sendo mãe que entendi o quanto a redução da jornada de trabalho é também parte do programa feminista, por atacar diretamente a lógica de produção e também garantir que as mulheres que cumprem dupla jornada de trabalho não se estafem, vamos combinar? A dupla jornada de trabalho das mulheres é algo inconciliável, seria muito bom ver uma pesquisa que falasse sobre as estafas, doenças e afins que milhares de mulheres cansadas por causa dessa lógica absurda, fora a quantidade de desempregados que seriam beneficiados com a redução imediata da jornada de trabalho, mas isso é outra história.

Acho sim que durante o socialismo haverão mães solteiras, talvez mais do que atualmente, pois acho também que a lógica de comunidade e solidariedade será mais difundida na sociedade, a noção de que a mulher não tem que dar conta do jantar, de lavar a roupa, cuidar dos filhos ou qualquer outra tarefa que consigamos pensar; não já vimos boas experiências de lavanderias e restaurantes público nos quais mulheres e homens tinham tarefas iguais sem essa divisão besta de que cozinhar e tarefa de mulher e abrir uma lata de azeitona a do homem. Está longe de acontecer, quem sabe, mas se paramos de sonhar viramos o que?

Quando escolhi ser mãe percebi que as pessoas com quem eu convivia não compreendiam, até por conta de todo processo histórico vivido por nossa sociedade, o fato de querer ter minha filha e bancar muita coisa sozinha, especularam, falaram besteira e besteiras grandes. As vezes se metem com fofoquinhas bobas na minha vida, mas uma coisa eu sei, o meu lugar tá colocado e o meu entendimento de quanto é importante uma mulher socialista ocupar espaços políticos, brigar para que os direitos de participação seja assegurado por suas companheiras e companheiros, garantindo tratamento igual na diferença é algo que não me tiram mais.

Acordar a noite com a febre de dente da minha filha, encarar assaduras, alergias, desdobramentos para conseguir participar de congressos, reuniões e atos. Tudo isso me fez ser ganha para o feminismo de vez, de ser a cricri quando falam alguma coisa ou pirar quando há algum preconceito sexista ao redor e neste mundo materno há muito preconceito sexista, seja por que você se desdobra para manter sua filha sozinha, seja por que você gerou uma criança com alguém que nunca cogitaste uma relação e tantas outras coisas.

É a Rosa não trouxe apenas o brilhinho de volta para casa, mas trouxe uma aura lilás que carrego para tudo que é canto.

10 respostas para Virei feminista por que virei mãe

    • Luka – Autor

      Oi Martha,

      Escreva sobre isso quando puder, é uma ótima experiência até para vermos nossos erros e acertos e as modificações daquilo que acreditávamos piamente =]

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