O medo sobre a esperança

As mulheres nas eleições este ano tiveram papel destacado, fosse na disputa presidencial como candidatas, caso de Dilma e Marina, fosse nos bastidores do pleito presidencial como Mônica Serra ou na substituição de Joaquim Roriz pela dona Weslian Roriz e a presença da Ana Julia no pleito de governo no PA. São todas mulheres, mas não representam a mesma coisa. Dilma, Marina e Ana Julia colocaram a cara a tapa em disputas difíceis normalmente e mais difíceis para as mulheres, visto a pouquíssima formação de figuras públicas femininas que temos mundo afora. Não é uma tarefa fácil para uma mulher encarar uma disputa eleitoral majoritária, mas estas três o fizeram, mas não acredito que tenha sido um avanço feminista. Assim como temos Dilma, Marina e Ana Júlia, nós temos também Margareth Tatcher, Condoleezza Rice e Hilary Clinton e estas últimas são figuras públicas e arauto de projetos políticos desprezíveis.

Infelizmente as três candidatas citadas também fazem parte de um projeto que onera os mais necessitados, obviamente que diferente de Marina, Dilma acaba não se pronunciando sobre temas polêmicos por medo de perder votos e com isso se rendem há um dos mais grotescos ataques ao estado laico que vivenciamos hoje, não o maior, pois o maior foi a assinatura do Acordo Brasil-Vaticano pelo governo Lula.

Citei no começo Mônica Serra e Weslian Roriz, essas duas vem de uma outra construção da figura da mulher, não uma figura protagonista como sabemos que as mulheres são, mas acessórios de seus maridos como a jornalista Cynara Menezes bem escreve no artigo O levante das Amélias Pitbulls. O fato dos papéis protagonizados por Mônica e Weslian serem o retrocesso do retrocesso na conquista do espaço político das mulheres da Revolução Francesa para cá não diminui o fato de que o papel cumprido por Dilma nestas eleições também é ruim, em nome da elegibilidade se enrosca cada vez mais nas armadilhas fundamentalistas armadas para qualquer um que defenda um estado laico e direitos democráticos.

O PT acabou capitulando ao que teve de pior nestas eleições: O sequestro da política pelo fundamentalismo religioso. E não venham dizer que é boataria, pois assim como o primeiro programa do José Serra ressalta a família, a vida e os valores cristãos, o de Dilma só omitiu a parte cristã e o próprio Zé Eduardo Dutra foi a público dizer que nunca esteve no programa do PT modificar a legislação referente a criminalização do aborto no Brasil. Não foi a Folha, Estadão, mas o presidente nacional do PT falando isso em coletiva e pra mim isso nada mais é do que capitulação, poderiam ter saído do debate de forma mais politizada, mostrando o drama que é esta questão no país hoje e mostrando suas diferenças com os tucanos para além disso. A questão é que não há diferença programática profunda entre o PT e o PSDB, o PSDB ataca as privatizações do PT e vice-versa, mas nenhum fala sobre a dívida pública que onera a todas nós, a redução da jornada de trabalho que ajudaria na criação de postos de trabalho imediatamente, a saúde da mulher para além de vê-la como um útero, mas de forma preventiva, que discutisse para além do pré-natal, parto e pós-parto, também discutisse como prevenir câncer de útero e mama; questão que passa para além de exames rotineiros, mas também no investimento em agricultura familiar e agroecológica; e obviamente a legalização do aborto.

Dilma que se pretende a primeira mulher presidente do Brasil não se dispôs a fazer este debate no 1º turno e agora no 2º sua campanha está tão atolada em respostas ao tucanato que não fará também, na verdade há um esforço maior em se disputar o fundamentalismo religioso do que se disputar os votos da esquerda brasileira e dos setores progressistas, num sentimento bastante do: esses votos já são nossos mesmo. São? Até quando? Até quando os setores progressistas vão aturar traição?

Hoje vivemos um momento eleitoral fundamentalista, despolitizado e que absorveu completamente o debate político brasileiro e o PT se rendeu a esta forma de debate, como acreditar naqueles/as que só fazem compromisso com os outros e não conosco?

Seguimos para uma vitória do Medo sobre a Esperança, independente de quem ganhar.

4 respostas para O medo sobre a esperança

  1. […] Este ano muito falamos de mulheres na política, até por conta de provavelmente termos no próximo ano a primeira presidenta do Brasil muito se debateu sobre qual é o lugar da mulher na sociedade e até eu escrevi sobre o tema por aqui. […]

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