Sobre a infanticida Maria Fárrar (Bertolt Brecht – tradução: Victor Neves)

Recebi este poema do Brecht via email por conta do 28 de setembro e também como forma de solidariedade às mulheres do PSOL. Não sabia a existência dele e ao ler só me mostrou como é grande o drama das mulheres que não tem meios para conseguir um aborto legal e seguro. Segue o poema:

1. Maria Fárrar, nascimento: abril menor e órfã, sem sinais, raquítica, e sem antecedentes até então, infanticida, nos dá sua versão: grávida de dois meses visitou uma mulher qualquer em um porão e, para abortar, tomou injeção que, embora doesse, de nada adiantou.

Mas eu vos rogaria: a raiva contivésseis que toda criatura, sem os meios, padece.

2. Pagou o certo (ela diz) ainda assim, o combinado, e comprou uma cinta, e apertou, bebeu álcool, enfiou pimenta, o que só machucou e deu diarréia. Seu corpo intumescia a olhos vistos e o ventre lhe doía ao lavar pratos. E, estando ela mesma ainda adolescendo, na rezaria à Virgem pôs o encanto.

E também a vocês, que a raiva contivessem que toda criatura, sem os meios, padece.

3. O rosário, parece, não vingou – pedira muito… O corpo já bojudo, tonteava na missa, e, ajoelhada, suava frio ante o altar, cerrado. Surtiu manter segredo sobre o estado até que o nascimento se achegasse porque, com aquela cara sua, enjoada, “não haveria homem que a tentasse”.

E a vocês, rogaria: a raiva contivessem que toda criatura, sem os meios, padece.

4. No dia, conta ainda, manhãzinha, sentiu como umas garras nas entranhas: pronto engoliu o choro, a dor tamanha, tremeu na base, mas manteve a linha. Enquanto pendurava, percebeu, a roupa que acabava de lavar, que era chegado o dia de parir. Pesou no peito, embromou pra subir.

Mas eu vos rogaria: a raiva contivésseis que toda criatura, sem os meios, padece.

5. Deitou-se, foi chamada ainda outra vez: tinha nevado e teve que varrer até as onze. Teve um dia cheio. Noite alta, pôde dar à luz em paz. E então pariu, ela é quem conta, um filho. Um filho como tantos outros filhos. A mãe não era como as outras mães: mas isso não é motivo para escárnio.

E também a vocês, que a raiva contivessem que toda criatura, sem os meios, padece.

6. Deixemos a menina terminar a história deste filho que chegou (diz ela que não tem o que esconder) que assim se enxerga como tu és, e eu sou. Mal se deitou, nos conta, a náusea veio a tomando de assalto. Sem saber o que viria depois, até que veio, teve de, a custo, os ganidos conter.

E a vocês, rogaria: a raiva contivessem que toda criatura, sem os meios, padece.

7. Com as forças que sobravam, se arrastou – porque o quarto estava uma geladeira – ao sanitário e lá (não sabe quando) deu à luz como deu, até a aurora. Já muito perturbada, entrava neve, diz ela, os dedos meio enregelados, estava prestes a deixar cair a criança na retrete dos criados.

E também a vocês, que a raiva contivessem que toda criatura, sem os meios, padece.

8. Entre a privada e o quarto – até então estava tudo calmo, afirma a moça –, moleque abriu o berreiro, o que a tirou do sério, e ela, cega, desatinou, pôs-se a socá-lo com os dois punhos, cheios, até que ele ficasse quieto, afirma. Levou consigo o corpo para a cama, manhã, ocultou na lavanderia.

Mas eu vos rogaria: a raiva contivésseis que toda criatura, sem os meios, padece.

9. Maria Fárrar, nascimento: abril e morte cumprindo cadeia em Meissen, mãe solteira, condenada, já se viu da história como toda vida é frágil. Vocês, que têm seus filhos em lençóis bem limpos, e uma gravidez ‘bendita’ não venham condenar-me aos condenados: se a falta é grave, o sofrimento é grande.

Portanto, eu vos rogo que a raiva contenham que toda criatura, sem os meios, definha.

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