Maternidade e militância

Che Guevara e sua filha

Tempo que não escrevo por aqui, porém nos últimos tempos tenho pensado muito, pensando em política, pensado em faculdade e, principalmente, pensado em maternidade. Há uma época em que quem faz escolha por você são seus pais, escolhem se vão falar bem de movimentos sociais ou não, se vão te dar mamadeira ou não, se a chupeta estará presente na sua vida ou não, se vão te levar para atos políticos ou apenas para shows infantis… Tudo quem escolhe são os pais e aí você de filha vira mãe e está na hora de fazer escolhas para um outro ser.

Fazer escolhas ao ser mãe não é apenas definir o tema do quarto da sua filha, ou com que cor ela saíra da maternidade. Maternidade é muito mais que isso, é sentar a bunda e ler sobre prós e contras da vacinação, entender o que dizem médicos e psicanalistas sobre amamentação, se apropriar do próprio parto e fazer conscientemente as escolhas que julgamos mais corretas. Não é fácil, mesmo se o seu companheiro a apoie, não é fácil.

Sempre digo que discutir política é como tomar a pílula vermelha e sair da Matrix, a mesma coisa acontece quando se quer entender tudo que este mundo proporciona para nossos filhos e que viraram verdades absolutas e inquestionáveis… Como o próprio capitalismo.

Para uma mãe solteira, jovem e militante não é fácil fazer escolhas, não é fácil escolher entre ir a uma reunião e ficar em casa acompanhando a filha, não é fácil decidir se o melhor para a criança é ter uma babá ou ir para escolinha no período em que estarás na faculdade, não é fácil lutar pelos direitos das mulheres de terem acesso a creches públicas decentes e não encararem uma fila de espera de mais de seis meses para poderem voltar a trabalhar enquanto você mesma passa por algo parecido. Acaba sendo você e você no olho do furacão para decidir algo.

Verdade seja dita, mesmo aqueles que pretendem te ajudar de alguma forma acabam te julgando, ou julgam pelas escolhas do teu parto e não tem coragem de vir discutir contigo, ou julgam quando é necessário deixar a filha para poder cumprir uma tarefa, ou fazem cara de não estou te entendendo quando tu viras e fala que não tem condição de ajudar em tarefa de acompanhamento alguma. No final das contas as mães militantes (sejam solteiras ou não) são as mais solitárias em suas escolhas e as que precisam de mais força para continuarem nos dois percursos.

Na lógica que eu escolhi para criar minha filha não são descasados a escolha por entender e participar de cada dia da cria e a luta por uma sociedade socialista, mas os companheiros e as companheiras socialistas, principalmente os jovens, não estão preparados para encarar em conjunto o desafio de ter uma companheira mãe que faz escolhas peculiares, sem a julgar por fora ou tentar ponderar o que seria realmente melhor tanto para o trabalho da corrente quanto para a militância da própria companheira mãe. Não entendem por que desconhecem, por que não querem conhecer até a vontade de ter filhos bata em suas portas e eles se deparem com a gama interminável de escolhas difíceis que temos de fazer e aí se sentirem mais uma vez sozinhos ao fazer essa escolha.

Eu me convenci que escolher um paradigma de maternidade tem tudo a ver com a escolha de que lado na sociedade você está, de que a luta socialista não está desvinculada de uma luta feminista, uma luta que discute socialmente a criação de filhos e a imposição que a própria sociedade médica nos coloca, que não trata grávida como doente, mas respeita e tenta compreender suas loucuras hormonais pré-durante-e-pós-parto.

Talvez seja por ter me convencido disso que ainda não parei de militar e voltei pra casa para viver a rotina diária de faculdade, casa e trabalho sem me envolver nas discussões e mobilizações sociais que estão aí ocorrendo, pois com uma nova forma de organização social talvez todos tenhamos tempo para compreender o motivo daquela mãe cesariada chorar tanto após o procedimento, ou compreender que as vezes não conseguimos dormir a noite por causa de demandas dos nossos e bebês e não iremos deixá-lo chorando noites a fio até aprenderem a dormir sozinhos.

Infelizmente ainda há muito pelo que lutar, ainda há muito machismo, muita opressão, muito vício entre aqueles que querem mudar algo no mundo… Há ainda muita nuvem frente aos olhos dos nossos socialistas.

7 respostas para Maternidade e militância

  1. Luka, amei seu texto!
    Antes eu achava que era só a gravidez, o parto, a amamentação, mas todas as escolhas devem ser muito pensadas, discutdas, pesquisadas, e ir contra o senso comum é muito difícil.
    Acabo de perceber como as coisas são mais profundas, e vão muito além de militar pelo parto!
    Tudo que envolve se empoderar desafia o patriarcalismo, o machismo… é muito mais embaixo esse buraco!!!!!
    Cath

    • Luka – Autor

      Cath,

      Que bom que gostaste das reflexões!
      Sim, o buraco é muito mais embaixo e se interliga com diversas outras questões, seja como vamos criar nossas filhas e filhos de uma maneira menos sexista, ou então escolher com qual realidade eles estarão mais próximos… E fazer estas escolhas junto ao papel de mãe não é nenhum pouco fácil… Talvez nós mães que queremos modificar esta relação homem e mulher tenhamos muito mais responsabilidade de conseguir criar meninas e meninos que não sejam avessos a uma sociedade que respeite a todas e todos de maneira igual…
      Ô coisa difícil!

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