Parir para se ocupar

Há mais coisas entre o céu e a terra do mundo feminino que supõe a nossa vã filosofia e não é por conta das crendices que livros à lá Bridget Jones colocam no imaginário coletivo. Existem determinados momentos que a mulher precisa tomar as rédeas de suas decisões e ser protagonista em sua história, seja numa manifestação política, ao decidir se continua ou não com uma gravidez ou como será o seu parto.

Parir é um ato político da mulher! Li isso semanas antes de decidir pegar o meu próprio parto na mão e encarar inseguranças, medos e questões mal-resolvidas. Defender o protagonismo da mulher diante do seu parto e dar para ela a chance de um momento de empoderamento único é refutar diversas formas de procedimentos desnecessárias e muitas vezes enraizadas numa lógica altamente machista e capitalista.

Até chegar ao ápice do rito de passagem de filha para mãe diversas peripécias aconteceram, daria um capítulo de Reinações de Narizinho inteiro, foi campanha eleitoral municipal, ocupação de reitoria em Sergipe, viagem de ônibus entre Aracaju e Fortaleza, medo de não entrar em trabalho de parto, de cair numa cirurgia desnecessária e o pior deles que me bateu no final da gravidez: o de estar sozinha na cidade quando as contrações começassem. Nesse baú de acontecimentos todos resolvi encarar uma troca de médico aos 45 minutos do segundo tempo, algo meio Corinthians colocando o Ronaldinho para jogar, mas com resultados muito melhores e sem piadinhas sobre peso e joelhos.

Um intensivo emocional, tudo misturado e se resolvendo ao mesmo tempo. O aborto mal-resolvido na cabeça, a vontade crescente de ter a filhota nos braços e a danada resolve ficar sentada, como assim sentada?! Achou que a pélvis era um sofazinho confortável e ficou ali até a hora do tal trabalho de parto, que até o momento era uma abstração total, pois a grande maioria das mulheres conhecidas não haviam entrado no bendito.

A insegurança reinava completa, quando decido virar e dizer: Olha! Esse parto é meu e vai ser do jeitinho que eu quero, sem mais nem menos! . O bebê resolve sentar de vez e ainda dar uma encaixadinha, será possível? Há possibilidade de ainda ter um parto normal nestas condições?

Comecei a ler, pesquisar, conversar… Dava pra tentar, mas o médico precisava dar conta do recado e fazer as manobras necessárias, fui conversar com o médico… Dá pé fazer? Sim… Dá pé fazer.

39 semanas e 4 dias. Um dia após conversar com o médico sobre a possibilidade de um parto pélvico, um dia após ele me passar segurança… Sinto umas coisas esquisitas perto da pélvis, umas pontadas com uma dorzinha lá no fundo, nunca havia sentido aquilo na vida. Acordei e como não parecia nada muito enlouquecedor fui para o computador jogar algum jogo de internet, dá o horário e vou para a yoga e lá pergunto pra professora como é que é entrar em trabalho de parto… Ela responde dizendo que parece uma cólica, beleza! Eu nunca tive uma cólica na minha vida e fica difícil eu saber se era isso mesmo, descrevo o que a barriga tava fazendo e pimba! Era o comecinho do famoso TP, fiz a aula de yoga, contrações de 7 em 7 minutos, as vezes 10 em 10, super irregulares.

Nesta altura dos acontecimentos pelo menos uma pessoa já sabia da possibilidade de eu estar entrando em trabalho de parto (TP). Chega o final da aula e sinto um vazamento, não foi uma enxurrada feito o que vemos nos filmes, foi um vazamento, como se a menstruação tivesse descido. Lá se foi a bolsa d’água, o líqüido amniótico não ta clarinho… Tem cocô lá dentro, eu penso: Porra! Ela já vai nascer cagando em mim… Beleza! Ligo pros amigos e médico avisando que é TP e ao mesmo tempo acalmando dizendo que o TP ta bem no comecinho, um deles vai me buscar na yoga. Até o amigo chegar a professora de yoga pede para a obstetriz que atende no mesmo lugar onde eu tinha aula auscultar o bebê pra ver se está tudo certinho, precisava ter certeza, pois o bebê tinha cagado dentro da barriga.

Tudo certinho, contrações irregulares, coração do bebê fazendo tumtum dizendo que está bem e prontinho pra começar a jornada de saída, vamos então para casa arrumar o que levar pro hospital, almoçar. A irmã já está cantando: Tu vens, tu vens eu já escuto teus sinais… Escuto? Eu tava sentindo mesmo! Começo a almoçar mais contrações. Olha vamos logo pro hospital que não vai dar pé esperar por aqui mais…

Chegando ao hospital eu e meu amigo vamos andando até a admissão da maternidade, é de boa, mas precisei parar alguns momentos para as contrações virem e passarem. Entra na admissão, 5 cm de dilatação e contando. Subo para o quarto de parto andando, se sentasse numa cadeira de rodas naquele momento ia ser o pior martírio, chego ao quarto de parto e vou direto para dentro do chuveiro. Enquanto tudo isso acontecia iam chegando pessoas e mais pessoas no hospital para acompanhar o tal trabalho. Entro debaixo d’água e lá começa uma contração forte atrás da outra… Putaquepariu! O que eu to fazendo aqui? Ouvia as pessoas da equipe médica me dizendo pra respirar, que as contrações eram como ondas que vinham e depois passavam, tudo fazia muito sentido, mas doía e cansava. E as pessoas chegavam e ficavam na sala de espera ouvindo meus urros de dor.

Saí do chuveiro, fica um tempo na banheira para dar uma descansada antes de ir pra cama de parto… Parecia que tinha tomado morfina, entre uma contração e outra eu desmoronava de cansaço.

Vai pra cama de parto, o médico chega: Dá para ficar de 4 ? vai ser melhor para você e o bebê… Hã? Não havia mais forças para nada, só para ficar deitada naquela posição de frango assado. Determinando momento sinto meu corpo pegando fogo, como se entrasse em um daqueles círculos de fogo usados para treinar leões em circos! Era a bunda da minha filha saindo, ardendo… Eu vi o corpo dela sair aos poucos, descomprimindo. Mais força, manobras para tirar a cabeça e ela saiu e foi direto pra cima da minha barriga, sem chorar, mas nós duas sabíamos que estávamos bem. Pensava que já tivesse terminado tudo quando volto a sentir cólicas, hora de parir a placenta, basicamente um grande baby beef. Após parir o acessório da pequenina a minha filha voltou pros meus braços e mamou pela primeira vez, ela nasceu com os olhões abertos e mamou olhando tudo que podia, parecia querer descobrir o mundo todo numa olhada só.

Não estava mais sozinha, literalmente, nos meus braços estava o bebê mais esperado da minha vida e na sala de espera se configurava uma pequena assembléia estudantil discutindo o que fazer após o parir: se continuava no hospital, se saia, se compravam pizza, se compravam esfiha… Quase o hospital teve suas dependências ocupadas por aquele bando de tios e tias ávidos em conhecer a mais nova integrante da trupe. Um levante praticamente!

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