O príncipe Kamar e a princesa Budur

Mas era verdade, um príncipe de carne e osso, não foi um sonho, eu sei. E se não puder me casar com aquele jovem o mais rápidamente possível, meu coração vai se partir e eu morrerei.

E aí rolaram gotas pelo rosto embebido em creme facial…

3 respostas para O príncipe Kamar e a princesa Budur

    • dany

      Conta-se que havia na Pérsia, em tempos idos, um rei chamado Chahriman, dono de exércitos e riquezas e poder, que tinha um filho tão lindo que o chamou Kamar Az-Zaman, Lua do Tempo. Um dia, o pai disse-lhe: “Meu filho, desejaria ver-te casado e provido de descendentes que continuarão nossa linhagem.” Kamar Az-Zaman mudou de cor e respondeu: “Pai, não sinto inclinação para o casamento, e meu coração não se regozija na companhia das mulheres. Li nos livros dos sábios tantas crônicas sobre a perfídia desse sexo que prefiro morrer a viver com uma mulher.” Aconselhado pelo vizir, o rei deixou passar um ano antes de voltar ao assunto. Mas quando a ele voltou, achou o filho tão oposto ao casamento quanto antes. “Como estão iludidos os pais quando desejam filhos,” lamentou o rei. “Pois um filho é uma decepção e uma mágoa encarnadas.” Ora, vivia na mesma época um rei da China chamado Ghayur que tinha uma filha mais esplêndida que a aurora e que ele chamou Budur, Luas – diversas luas reunidas numa só. Amava-a tanto que mandara construir para ela sete palácios, cada qual diferente dos outros: o primeiro era de cristal; o segundo, de mármore; o terceiro, de ferro chinês; o quarto, de pedras preciosas; o quinto, de prata; o sexto, de ouro; e o sétimo, de jóias. Disse um admirador: “Vi a jovem passeando em seus palácios; será surpreendente que tenha perdido a razão?” Todos os reis procuraram essa beleza incomparável para seus filhos; mas cada vez que o pai Ihe falava em casamento, Budur respondia: “Sou a rainha e a dona de mim mesma. Como pode meu corpo, que mal agüenta o toque da seda, tolerar o contacto rude de um homem`?” Quando seu pai insistia, ela ameaçava matar-se. Para castigar a desobediência do filho, o rei Chahriman o tinha condenado a viver numa torre antiga abandonada, atrás da qual havia um poço onde se refugiara uma jovem Afrita da descendência de Ibliss, chamada Maimuna. Era a filha de Dimiryat, rei dos gênios subterrâneos. Uma noite, Maimuna avistou luzes na torre inabitada e, curiosa, quis ver o que lá acontecia. Voou e entrou nos aposentos iluminados e viu Kamar Az Zaman deitado seminu na cama. As palavras não conseguem descrever sua surpresa e alegria. Ela nunca havia visto beleza igual. Ficou uma hora a contemplá-lo, depois depositou beijos delicados em seus lábios, olhos, faces e saiu descontrolada. Cruzou na saída com o Afrit Dachnack, que chegava da China onde ficara deslumbrado com a beleza da princesa Budur. Contou sua aventura a Maimuna. Maimuna recebeu suas confidências com escárnio: “Tuas observações acerca dessa jovem desgostam-me. Como ousas compará-la ao jovem que eu amo? Ele é tão lindo que, se o visses apenas em sonho, cairias como um epilético e roncarias como um camelo.” Para pôr fim à discussão, os dois gênios decidiram visitar os dois jovens e comparar-Ihes a beleza. Apostaram mil dinares no vencedor. Maimuna levou então o Afrit até o aposento de Kamar Az-Zaman, e ele disse: “Maimuna, compreendo teu entusiasmo. Nunca vi, com efeito, tantas perfeições reunidas num só jovem; contudo, digo-te que o molde em que o fabricaram foi usado para produzir uma cópia feminina, que é a princesa Budur, filha de Ghayur.” Maimuna ficou furiosa e disse ao Afrit: “Voa rápido e traze a tal maravilha para cá, a fim de que possamos colocar os dois jovens lado a lado e compará-los.” Dachnack apanhou seu chifre e sumiu no espaço como uma flecha. Uma hora depois, estava de volta carregando a princesa adormecida, vestida com uma simples camisola. E os dois feiticeiros levaram-na e estenderam-na ao lado do príncipe Kamar Az-Zaman. Maimuna teve que admitir que os dois eram iguais – menos nas partes que fizeram deles homem e mulher. Assim mesmo, cada Afrit afirmava ter ganho a aposta e, para resolver sua divergência, decidiram recorrer a um árbitro. Imediatamente apareceu um Afrit de horrível feiúra. Tinha seis chifres e três caudas; um de seus braços media dez metros de comprimento; o outro, apenas dois. E seu zib era quarenta vezes maior que o zib de um elefante. Seu nome era Fakrach Ibn Atrach, da linha de Abu-Hanfach. Convidado a indicar o mais belo dos dois, o gênio contemplou-os longamente e, constrangido, reconheceu: “Por Alá são iguais em beleza. A única diferença entre eles refere-se ao sexo. Se assim mesmo insistirem em descobrir alguma superioridade num deles, acordemo-los, enquanto permanecemos invisíveis, e aquele dos dois que manifestar maior paixão pelo outro terá reconhecido que os encantos do outro são mais poderosos.” Os três concordaram e Dachnack, transformando-se numa pulga, mordeu Kamar Az-Zaman no pescoço. Kamar Az Zaman, meio-acordado após a irritação de seu pescoço, deixou a mão cair, e ela pousou na perna nua de Budur. O jovem abriu os olhos, mas eles voltaram logo a fechar-se, ofuscados que foram pela visão da beleza. Encantado, levantou a cabeça e contemplou longamente a desconhecida que dormia a seu lado. Depois, virou-se e exclamou: “Que traseiro glorioso E começou a acariciar-lhe o ventre, os seios, as pernas, as nádegas.
      Devemos acrescentar que fora Dachnack quem provocara um sono profundo em Budur para permitir ao jovem manipulá-la à vontade. Kamar Az-Zaman aplicou seus lábios nos de Budur e procurou acordá-la, mas em vão. Concluiu: “Não posso esperar. Devo penetrar nela enquanto dorme.” Mas pensou de repente que provavelmente o pai mandara colocar a jovem lá para provocá-lo, e que ele estava observando-o de algum esconderijo. Se tocasse nela, o pai o censuraria por não querer mulher para assegurar a sua posteridade, enquanto a queria para o divertimento e o vício. Virou, pois, as costas e voltou a dormir. Budur acordou finalmente e, já apaixonada por Kamar Az Zaman, pediu-lhe: “Por favor, abre os olhos, ó mestre da beleza. Só tu conseguiste acender um fogo em mim. Oh, por que não acordas? Acorda, senão vou morrer.” E começou a acariciá-lo. De repente, sua mão tocou em algo que ela não conhecia. E a coisa começou a crescer em sua mão e a provocar nela novas sensações. Comparando seus dois corpos, compreendeu o papel daquele órgão e introduziu-o onde cabia. Os três Afarit acompanhavam tudo isso sem perder um gesto. Deixaram a operação chegar ao fim, depois aproximaram-se da cama, levantaram a moça sobre as espáduas, voaram com ela e a depositaram em sua cama no palácio de seu pai na China. E foram embora em direcções diferentes. Pela manhã, Kamar Az-Zaman acordou, a mente cheia das imagens da noite. Não encontrando a moça, teve a certeza de que se tratava de uma manobra do pai para levá-lo a casar-se. Chamou seu escravo e perguntou-lhe: “Aonde levaste a jovem, ó Sauab?” “Que jovem, meu senhor?” perguntou o escravo. “Hoje, não agüento tuas mentiras, velhaco abominável” retrucou Kamar Az-Zaman. Apanhou o escravo, estendeu-o no chão e pôs-se a bater nele, dizendo: “Vou bater em ti até que confesses onde está a jovem ou até que morras.” Uma vez coberto de sangue e tendo um braço quebrado, o escravo gritou: Por favor, para de bater em mim, e confessarei tudo.” Assim que o príncipe parou de bater nele, o escravo pediu licença para ir lavar o sangue e aproveitou para correr ao palácio e dizer ao rei, chorando, que Kamar Az-Zaman tinha enlouquecido. E descreveu ao rei e ao vizir as alucinações que presenciara.O rei, após insultar o vizir, responsabilizando-o por tudo, mandou-o verificar o que se passava. Kamar Az-Zaman, considerando o vizir de conluio com seu pai, naquela farsa, exigiu dele que lhe trouxesse a moça. Como o vizir negava tudo, o príncipe bateu nele também e lhe arrancou fios da barba. E o ministro voltou à presença do rei num estado lamentável, repetindo que Kamar Az-Zaman tinha enlouquecido. Insultando o novamente, o rei correu à torre para ver o filho. Achou-o tranqüilo, lendo o Alcorão. “Meu filho, disse o rei, por incrível que pareça, esse nojento escravo e esse vizir maluco alegam que enlouqueceste, pois os acusas de ter levado uma mulher que dormiu contigo aqui à noite.” – Pai, respondeu o filho, não agüento mais essa farsa. Tenho provas do que digo. Primeiro, este anel que ela me deu em troca do meu. Depois, quando acordei, tinha sangue embaixo do umbigo, o sangue da virgem que se entregara a mim. A água com que lavei o sangue está ainda no banheiro. Fiquei tão apaixonado por ela que, se não conseguir encontrá-la e casar-me com ela, ó pai, ficarei doente até morrer. O rei examinou a água e convenceu-se da veracidade das palavras ao filho, mas não conseguia penetrar o mistério e muito menos adivinhar quem era a moça e onde procurar por ela. E o filho foi definhando. Na China, a noite estava acabando quando os três Afarit devolveram a dama Budur a seu leito. Ao acordar pela manhã, sorriu e com os olhos ainda fechados estendeu os braços para apertar seu amante, mas só abraçou o ar. Não encontrando ninguém na cama, emitiu um grito tão agudo que sua governanta e suas nove escravas acorreram para junto dela. “O que aconteceu, minha ama?” perguntou a governanta. – Perguntas como se não soubesses, astuciosa bruxa. Dize-me logo onde está o jovem mais belo que a lua que passou a noite comigo e a quem entreguei meu corpo, meu coração e minha virgindade. Essa declaração causou tamanho escândalo que toda a corte foi perturbada. O rei acorreu aos aposentos da filha e disse-lhe: “Minha querida, que alucinações tomaram conta de ti? Por que essa conduta indecorosa?” Por resposta, Budur rasgou a camisa, do pescoço até os pés, bateu nas faces e afundou num mar de lágrimas. O rei chamou então todos os sábios, astrólogos, doutores e alquimistas do reino e disse-lhes: “Minha filha Budur está em tal e tal estado. Quem conseguir curá-la a terá por esposa e herdará o trono depois de mim. Mas se aproximar dela sem a curar, terá a cabeça cortada.” Ora, a princesa Budur tinha um irmão de leite, Marjan, que havia estudado a magia e a feitiçaria em livros hindus e egípcios. Visitou-a em segredo, munido de um astrolábio, de livros mágicos e de uma lâmpada, e entendeu que Budur estava apaixonada por um jovem desconhecido, e não tinha nada mais. O único problema era descobrir o jovem. Marjan, que amava a irmã, decidiu tudo abandonar e percorrer os países na esperança de localizar, por um acaso feliz, o homem que lhe devolveria a alegria de viver. Para ajudá-lo nas buscas, Budur entregou-lhe o anel de Kamar Az-Zaman que lhe ficara no dedo. Marjan viajou de cidade em cidade e de ilha em ilha, ouvindo em toda parte notícias e rumores sobre a estranha alienação mental da princesa Budur. Seis meses depois, chegou à terra de Kholidan e lá começou a ouvir a história de Kamar Az-Zaman, vítima de alucinações que pareceram a Marjan similares às da princesa Budur. Um dia, encontrou-se com o vizir do rei Chahriman, o qual, conversando com ele, ficou impressionado com seus conhecimentos em todos os campos, notadamente na medicina, e pensou: “Este moço será sem dúvida capaz de curar o filho de meu soberano.” E convidou-o a visitar o palácio real. Na primeira entrevista que teve com Kamar Az-Zaman, Marjan convenceu-se de que ele era o jovem que sua irmã de leite procurava e que ela era a jovem que o príncipe procurava. Mostrou a Kamar Az-Zaman o anel de Budur. No mesmo instante, o príncipe curou-se completamente, e as cores da juventude voltaram-lhe às faces. Sem pedir licença ao rei, os dois jovens iniciaram imediatamente a viagem rumo à terra da princesa Budur. Quando lá chegaram, havia já quarenta cabeças penduradas na praça pública – as cabeças daqueles que haviam tentado curar a princesa sem o conseguir. Na entrada do palácio da princesa, os eunucos encarregados da segurança olharam com pena para esse novo pretendente, tão belo e que breve iria ter a cabeça cortada. Mas ele apanhou um papel e escreveu: “De Kamar Az-Zaman, filho do sultão Chahriman, para a princesa Budur, filha do rei Ghayur. Se tivesse que descrever toda a paixão de meu coração, não haveria bastante tinta no mundo. Contudo, se a tinta faltar, meu sangue escreverá o resto. Com esta mensagem, envio-te teu anel como prova indiscutível de que sou o jovem cujo coração transformaste em incêndio e em tempestade e que chora e clama por ti. Kamar Az-Zaman” O príncipe colocou o bilhete e o anel num envelope, selou-o e entregou-o ao eunuco. O escravo transmitiu-o a sua ama, dizendo: “Há um jovem astrólogo atrás da cortina, tão audacioso que alega ser capaz de curar as pessoas sem as ver. Enviou-te este papel.” Mal a princesa abriu o envelope e reconheceu seu anel, gritou de alegria e, empurrando o eunuco, correu até o amante e lançou-se nos seus braços. Beijaram-se como dois pombos que havia sido separados pela maldade do destino O eunuco correu a informar o rei: ‘ aquele jovem astrólogo é mais sábio que todos eles. Curou a princesa Budur antes mesmo de a ter visto.” O rei foi ao aposento da filha e, vendo que estava de fato curada, beijou-a entre os olhos, abraçou Kamar Az-Zaman e perguntou-lhe de onde vinha. “Venho de Kholidan. Sou o filho do rei Chahriman.” E contou toda a
      história. – Por Alá, comentou o rei, essa história é tão maravilhosa que se fosse escrita com uma agulha no canto interno dos olhos, ensinaria a prudência, a reflexão, mas também a audácia e a esperança. Mandou vir o cádi e as testemunhas e fez redigir o contrato de casamento entre Budur e Kamar Az-Zaman. A cidade foi decorada e iluminada durante sete dias e sete noites. O povo comeu, bebeu e se regozijou. E os dois enamorados amaram-se à vontade no meio dos festejos, agradecendo Àquele que os tinha feito um pelo outro. Numa noite, Kamar Az-Zaman viu seu pai num sonho, dizendo-lhe: “É assim que me abandonas, ó Kamar Az-Zaman? Vê , estou morrendo de saudade.” Quando acordou, disse à princesa Budur: `Amanhã devemos tomar o caminho de meu reino onde meu pai está doente. Apareceu-me em sonho, e está esperando por mim, chorando.” – Ouço e obedeço, disse Budur com meiguice. E logo foi procurar o rei. “Pai, disse-lhe, solicito tua compreensão para que acompanhe meu marido à terra de seus pais.” – Não tenho objeção, respondeu o rei, desde que nos venhais visitar de ano em ano. A princesa beijou a mão do pai, agradeceu-lhe a bondade e chamou Kamar Az-Zaman, que fez o mesmo. Depois, viajaram até o reino de Chahriman onde foram recebidos com grandes festejos e regozijos. Cada ano, Budur, acompanhada do marido, ia visitar os pais. E todos viveram em perfeita harmonia até seu ultimo dia.

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