Um novo olhar sobre o Araguaia

 

Por Luka Franca – lukissima@gmail.com

Desde o final dos anos de chumbo no Brasil, em 1985, a sociedade busca respostas para os acontecimentos ocorridos durante esta época, ações tanto dos militares quanto dos militantes contrários ao regime. Neste período, o país presenciou diversas formas de organização que faziam frente ao regime militar instaurado em 1964. Uma das mais famosas foi a Guerrilha do Araguaia, que teve como palco os estados do Pará, Maranhão e Tocantins – que naquela época ainda fazia parte do estado de Goiás. Até hoje uma boa parte do que é conhecido sobre o Araguaia tinha sido escrito com base em documentos dos próprios guerrilheiros e do PCdoB; mas durante suas pesquisas, Hugo Studart teve acesso a documentos fornecidos por militares que estiveram nas três campanhas da Operação Araguaia.

 

A Lei da Selva é uma dissertação de mestrado que teve seu conteúdo ampliado para a publicação. Studart faz uma análise de todo o imaginário que envolvia a situação, como os militares atuantes na região encaravam os atos dos guerrilheiros e os respeitavam. Tanto que quando se referem aos guerrilheiros desertores antes das operações militares começarem na região, parecem tratá-los com indiferença, como se os guerrilheiros presentes durante as incursões militares merecessem ser respeitados por enfrentarem os militares em combate. No livro, o autor usa como base um dossiê entregue a ele pelo exército que o ajudou durante a pesquisa. Para ter um contraponto das situações apresentadas no dossiê, foram utilizados três documentos escritos por guerrilheiros: Relatório Arroyo, Relatório Pomar e O Diário do Velho Mário.

 

Os documentos usados para a construção de A Lei da Selva tratam sobre o cenário anterior as três campanhas realizadas no Araguaia e a realidade vivida durante a operação. De todas as incursões, a terceira foi a que mais feriu as Convenções de Genebra e os direitos humanos, além de ser a mais obscura. Ao mesmo tempo em que Studart analisa os acontecimentos tendo como pano de fundo os relatos dos militares e de alguns guerrilheiros, também remete a outros fatos históricos: no trecho em que os militares relatam a execução da guerrilheira Dina, o escritor compara a história  da execução com o mito de Aquiles e Perciléia – Aquiles teria se apaixonado por Perciléia no momento em que seus olhares se cruzaram, instante em que ele matara a moça. Em outras passagens são percebidas divergências naquilo que é contado pelos ex-guerrilheiros e militares, como no episódio em que o corpo  de um dos líderes da guerrilha, Osvaldão, teria sido pendurado pelo pescoço em um helicóptero. Segundo os militares, tal acontecimento foi acidente.

 

O livro vai mostrando as discordâncias de imaginário, como os acontecimentos tinham uma significação diferente para os dois lados. Trata-se de mais uma peça que dá continuidade à montagem dessa parte do quebra-cabeça que é a época do regime militar, principalmente a Guerrilha do Araguaia.

Uma resposta para Um novo olhar sobre o Araguaia

  1. […] No livro A lei da selva, o jornalista relata sua morte como ocorrendo na localidade chamada Remanso dos Botos, em choque com uma patrulha de fuzileiros navais, não do Exército, sem confirmar a ocorrência de baixas entre os militares da Marinha, que teriam sido retirados da região em seguida, por falta de condições psicológicas para permanecerem na selva. Studart transcreve o seguinte trecho do diário de Maurício Grabois, de autenticidade ainda não comprovada, cuja narração tem pontos comuns e pontos divergentes em relação ao Relatório Arroyo, transcrito anteriormente: […]

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