Retrospectiva

E quando tudo começou a falhar a primeira coisa pensada foi como iria deixar os seus dois bebês sozinhos no mundo, falhando os rins ela começou a relembrar… Como dizem que acontece quando a morte se aproxima.Ela começou a lembrar do dia do seu nascimento lá no interior de Minas, lembrou dos apelidos dos irmãos quando pequenos, da bolinha de cabelo que um dia jogara numa das irmãs mais velhas, lembrou do pasto, das bonecas feitas com espiga de milho, o irmão chamando a outra irmã de Bozoruá, o dia em que atravessou a morada do boi brabo e a mãe acabou vendo um anjo protegendo-a do animal enfurecido… Aí passou pro dia em que deixou Minas da boleia dum pau-de-arara, viu o primeiro irmão casado dando tchau da porta da casinha dele, viu a estrada, a terra batida a casa onde havia crescido, deixou Minas e a infância lá nas terras do Jequitinhonha.

Deu um corte e pulou para Vila Velha, do dia em que o pai finalmente registrou a ela e os irmãos mais novos, mas não foi com a idade original, para os meninos poderem estudar seu Manoel registrou os quatro filhos mais novos como se tivessem 5 anos a menos do que realmente tinham, o afogamento dela na praia,… Ela lembrou disso e aí caiu a primeira lágrima. Lembrou depois das histórias de São Paulo, a morte do pai, a formação da nova família, o trabalho em casa de família, do maduresa todas as noites, o dia em que um homem a abordou tarde da noite na parada de ônibus e o pavor se instalou dentro do coração novinho dela, quando dona Donatilia saiu com uma vassoura e pôs pra correr um dos namoradinhos de juventude, as noites dormidas no IAE, as tardes batendo de porta em porta para vender mercadoria no Pacaembu, o dia em que cortou toda a mão na Scuib, quando ia ao ensaio do coral domingo de manhã no teatro municipal, os sábados na igreja do Capão, quando decidiu partir para Belém sem nenhum puto dentro do bolso e mais antes de lembrar de Belém lembrou de quando teve psicologia no técnico em secretaria executiva e descobriu que queria estudar Freud e não datilografar numa salinha a vida toda…

Chegou a Belém, e aí as lágrimas começaram a sair do nada, lembrou quando conheceu a melhor amiga-irmã, dos dias em que passou fome por não ter dinheiro nem para comer, da carta que os amigos da Scuib mandaram com ajuda financeira, as tardes estudando para o vestibular, a descrença que o povo da igreja tinha na aprovação dela, o dia em que a lista saiu, as tias da cozinha do Hospital Belém deixando comida separada para ela todos os dias, a mudança para a casa nova, a história do banheiro, as tardes de estudo e suco na varanda da casinha do Marco, as aulas na UFPA, os novos amigos, as idas ao Theatro da Paz, o início do trabalho em psicologia hospitalar no Hospital Belém, o estágio na Comunidade Terapêutica do Pará, o dia em que um dos pacientes a atacou com um pedaço de madeira, um outro paciente desconfiado recém-internado pela família, o começo de namoro com o paciente desconfiado, o pedido de namoro em Mosqueiro, a ida pro Rio, as brigas com a tia do namorado, a volta pra Belém, as brigas com a família do namorado-marido, a primeira filha, o trabalho na UFPa, as aulas ministradas nas Ficom, o dia em que a aluna louca furou todos os pneus do carro dela, a segunda filha, os dias passados com o primeiro filho do marido, a morte da mãe, a greve de 90 das federais, a redemocratização do país, o impchemant do Collor, a caçula chorando por causa da primeira derrota do Lula, a separação, o namorado novo, a mulher do namorado novo, o apartamento na Conselheiro Furtado, o mestrado em Clarice Lispector, as viagens de férias pelo país, as saídas com os amigos, Cosanostra, Manga Café,  os natais na casa da família adotada, os passeios na praça Batista Campos domingo de manhã com as meninas, o consultório, as filhas crescendo, a mudança de colégio, a compra do apartamento maior, os almoços em Icoraci, a viagem pra Gramado, férias em Salinas, a tentativa de doutorado na sociologia, as meninas nos festivais de música e poesia do Moderno, a caçula ganhando o concurso de redação do Círio, os festejos nazarenos como um todo, as matinês de domingo no cinema, o dia em que levou as meninas para assistir “O ladrão de sonhos”, a viagem de carro para Fortaleza, a aprovação no vestibular da filha mais velha, os TCCs orientados por ela, o show do Ney Matogrosso, os quinze anos da mais velha, a reaproximação do filho do ex-marido, o medo de água, as idas ao T1, a mais velha aprendendo a dirigir, o convite para fazer o doutorado em São Paulo, a morte do irmão mais velho, os quinze anos da caçula, as brigas da caçula no colégio, a militância da mais velha, o xícara, a articulação da mudança, o receio de modificar a vida das filhas do nada, o grande amor da mais velha, a eleição do CRP-10 e a volta para São Paulo.

Finalmente lembrou dos últimos meses, a mudança de cidade, a reaproximação da família, os embates com o orientador, as dificuldades financeiras, as brigas com a mais velha, a tristeza da caçula, as saudades das três, a aprovação das filhas na PUC e na USP, a expectativa de voltar a Belém para o congresso de psicopatologia, a filha mais velha dirigindo para levá-la a todos os lugares, a briga com o Fefe, o cabelo laranja da mais velha, a casa cheia de visitantes paraenses sempre, a dificuldade para estudar e produzir os trabalhos pro doutorado, o quinto andar, as voltas para casa da PUC com a mais velha, a viagem para Belém, o reencontro com as pessoas dela, a felicidade, a dor latente na cabeça, o pedido para não deixar as meninas irem para Belém, a UTI, a chegada das meninas para visitá-la, o cansaço imenso, a mudança para o isolamento, a luta para voltar, os médicos falando besteira e ela os reprimindo com o olhar, a mais velha lendo Clarice Lispector no final de tudo : Tem que haver uma saííííída… O último som da voz da mais velhas, o beijo de despedida. Aí começou a falhar tudo e a última coisa que lembrou foi da suas tão amadas meninas e de como sentiria falta delas…

10 respostas para Retrospectiva

  1. eu também chorei na primeira derrota do lula. mas eu era o mais velho.

    poxa… eu tinha só 5 anos. não sei como eu podia saber o que a derrota dele significava, mas eu chorei. eu lembro direitinho.

  2. e esse texto ficou muito bonito luka. fiquei com um pouco de receio de falar de primeira, já que ‘bonito’ chega a soar um tanto vulgar pra um texto desse tipo.

  3. Milena

    e foi tão lindo que seria impossível não chorar. parece que eu lembrei de tudo, mesmo sem nunca ter vivido nada.

    ;*

  4. Ivone

    Muito delicado seu texto. Belo.
    E como eu quero que vc entenda a amplitude destes dois adjetivos aqui.
    Faz 5 minutos que choro.
    A memória randômica, feliz, dolorosa, intensa e saudosa de quem está indo é também a de quem fica.
    E choro mais…
    Releio e atento mais para outros detalhes: as escolhas, a narrativa, a forma. Tudo lindo.

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