Apenas uma sensação

Havia tempos que não saia do cinema tão pertubada… Na verdade havia tempos em que ela nem botava os pés dentro de uma sala de exibição, numa tentativa desnorteada de recuperar suas rotinas ela se lançou ao cinema mais próximo e num uni-duni-tê estremecido escolheu um filme para assistir.

Agora estava andando pela rua e não tinha muita idéia pra onde ir, encontrava-se mais desnorteada do que antes, o filme havia enviado o dedo dentro das feridas mais profundas existentes naquela pessoa… Sentia a necessidade de sumir e sentar numa vala qualquer para chorar, chorar desesperadamente como nunca fizera antes.

Estava em queda livre há tanto tempo que não percebera o quão amortecida ela se encontrava, procurava no rosto das pessoas um alento para toda aquela dor calada pedindo para rasgar o peito duma vez, não encontrava o alento e a angustia aumentava, a cabeça girava e as confusões, mágoas, bobagens e importâncias não conseguiam se organizar… Como chegara a tal ponto de não saber mais dela mesma e apenas continuar a sobreviver sem motivo real?

Se corresse alguém notaria seu desespero? Foi necessário duas horas e pouco para ela acordar e notar a sua própria miséria afetiva, não precisava de tal tapa na cara assim tão do nada, era como acordar assustada no meio da noite e a mãe pedir desculpas pelo susto… Um supetão… Um supetão que só fazia atiçar ainda mais a dor lancinante que sentia no peito.

Era como se nunca mais fosse parar de chorar ali naquela avenida, aí as lágrimas se tornariam ondas altamente salgadas e inundariam tudo, ela afundaria e não tinha um galho para tirá-la daquela afundação…

Havia se dado conta de todas as suas dores bem somatizadas, as mais recentes e as mais antigas, não parava de olhar na cara das pessoas pedindo silenciosamente ajuda para não morrer afogada em si mesma, ninguém a olhava, a acolhia ou a lembrava… Era apenas mais um borrão no meio da rua, um borrão cheio de angustia e água… Um borrão que a qualquer momento seria pisado e repisado pelo tempo… Um borrão pronto para ser desimportante para todos… Um borrão angustiado, choroso, gelado e cinza… Completamente blue.

Resolveu sentar num café qualquer e escrever, só pensava em escrever para que todos aqueles sentimentos e incertezas saissem dela e ganhassem o mundo a livrando um pouquinho do peso… Mesmo assim o peso não saiu…

Ela saiu do café, desceu a rua, sentou num canto da calçada e voltou a chorar compulsivamente… Chorou e acabou se afundando nas próprias incertezas e dores, não havia ninguém que soubesse nadar para salvá-la e no fundo das suas próprias águas ela ficou até não conseguir mais ouvir o seu próprio lamento. Tudo revelado por uma película pertubadora…
.
I will learn to swim, Hannah… I will learn to swim

Responder a Apenas uma sensação

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s