Confusões de uma garota-eterna-menina

Tinha vontade de rodar feito menina no meio de um campo enorme, brincar de esconde-esconde, aprender a tocar piano e jogar futebol. Tentava desesperadamente ser um pouquinho ela, sem a mãe ver apertava os sacos de arroz, leite e sabão em pó só para sentir aquela textura consistente que ao mesmo tempo parecia escapar entre os dedos. Dependendo da vontade dela ficaria sentada no parapeito da janela durante horas só vendo os velhos narigudos, as moças de largas ancas, as borboletas amarelas, os poodles de madame e os moleques vendedores de jornal, todos vivendo o seu dia ensolarado com céu azul sem nuvens…

Poderia cantar feito noviça rebelde, voar feito águia e brincar de rodar no lugar só para sentir o vento caminhar entre os fios de cabelo. O cheiro doce de flores e os olhos fechados e apertadinhos, como crianças fazem quando o vento passa e começa a levar as lágrimas e as tristezas embora… Passaria o tempo inteiro vivendo filme com trilha sonora meiga, mas que em certos trechos daria saltos homéricos só para ela poder saltar também. Viveria na praia construindo um eterno castelo de areia e imaginando os príncipes e princesas que residiriam lá com ela, os bobos da corte, valetes, chefs, damas de companhia e os músicos e dentre os músicos o pianista…

Um pianista que comporia valsinhas amáveis só para aquela garota-eterna-menina, a ensinaria a tocar violino e criar a própria música… A própria vida. Aquele alguém eterno que voltaria ao som de músicas diversas, harmonias diferentes e olhares perdidos no mundo, voltariam feito crianças no parque comendo maçã do amor e girando na roda gigante só para ficarem longe de toda a realidade. Não seria perfeito, mas necessário para o crescimento dela… Com isso se tornaria mulher-eterna-menina, com luz no cabelo e flor no sorriso.

Em noites clareadas pela lua cheia ela sentava e imaginava tudo, via acontecer as cenas de menina confundidas com as cenas de mulher e o vento tentando levar as tristezas, os olhos fechados apertadinhos tentando segurar a lembrança, as valsinhas de piano, as voltas na roda gigante, os dedos dele escorregando entre as teclas e as pernas, as sessões de cinema e as separações necessárias… Tudo retornando numa noite, ao som de músicas e mais músicas, o roteiro fechado em sonho e sonhado em se realizar nos mínimos detalhes.

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