Lembrança de uma noite

Dava para ver a garota correndo, ia perder o filme, tenho quase certeza… Quase, pelo simples fato de não estar com a mínima vontade de seguir aquela figurinha de vestido cor de limão e cabelinhos tointoin rua a fora.

Ouvi os passos curtos e apressados ganhando velocidade até virarem passos de corrida desenfreada (Taplac! Taplac! Taplac!), pensei que deveria ser uma dessas pessoas acostumadas a freqüentarem o cinema sozinhas, sabe aquelas que os outros olham com uma dó e pensam no fato da pobrezinha ter levado um bolo do namorado ou namorada? Acho que a menina era desse tipo de gente.

Continuei caminhando; sem lenço, muito menos documento… Era uma fase que eu podia me dar ao luxo de levar no bolso somente o dinheiro do busú e da breja “gelada”, tempo de blue moons e cantorias desafinadas varando a madrugada e os ouvidos.

Nessa noite específica fiquei com a garota maratonista na cabeça, lembrando de todo o percurso feito por ela, até onde eu tive vontade de acompanhar, é claro! Tudo em slow motion neural. Me deu uma vontade de conhecer aquela menina, do nada, encontrar amigos em comum e montar uma aproximação, só para saber onde ela tava indo e o motivo de tanta pressa… Mas nem ao menos sabia o nome dela.

Parei em um barzinho, talvez fosse o bar de todas as noites, talvez não; agora não recordo essa informação, mas como todo barzinho de metrópole com ares de província, acabei encontrando um bom amigo para pagar mais bebida que meu dinheiro contado poderia comprar. Papo de bar, as vezes, é sem grandes profundidades sócio-filósofo-econômicas; e como estava em dia de falar besteiras falei da tal garota.

Uma menina vestida de amarelo-limão correndo pela rua, meio chorosa-feliz, com uma imediatividade assustadora e encantadora… Me apaixonei pela tal figura, por mais fora de órbita que isso possa soar. O companheiro de mesa ria das perguntas feitas por mim para saber da tal menina; ele acendia um cigarro, bebia um gole de cerveja e continuava a me ouvir falar da tal. “Mulher… Tens certeza que não sonhastes essa cena?” perguntava depois de ouvir tantas preocupações sem pé nem cabeça.

Ah! Esqueci de dizer! Era noite de lua cheia, blue moon e cantoria na certa. Virava pro amigo e falava calmamente: “Caralho, tu achas que eu to inventando isso tudo?” esquecia de tal indagação e voltava a divagar… Haja paciência para me ouvir cogitar sobre um outro ser desconhecido, quiçá, inexistente. Enchi o saco de pensar na tal menina maratonista e comecei a perguntar e mudar o rumo da prosa.

Acabei a noite falando de poesia, filmes e política… Como toda a noite praticamente. Também saí no lucro, ganhei carona e guardei uns dois ou três reais para poder gastar noutra noite qualquer.

Recordando bem, cheguei em casa umas cinco ou seis da manhã, tomei um Toddy com leitinho morno e fui direto para a cama descansar um pouco. Fechei os olhos e ela me apareceu meio ofegante, meio sorridente – nesse momento me senti em um episódio de Lain ou em alguma cena de um sitcom qualquer.

Não dormi naquele começo de dia, pois fiquei papeando com um outro eu apaixonante e efusivo… Ah! Quem dera eu ser daquele jeito! Onde será que essa fulaninha se esconde…

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